Desvendar o lado invisível do universo com ajuda da Ciência Cidadã

. 30 de Abril de 2026

A Agência Espacial Europeia (ESA) acaba de dar um novo passo decisivo na forma como a ciência pode ser desenvolvida, de forma partilhada. Com o lançamento do projeto Euclid Space Warps, investigadores estão a envolver ativamente cidadãos entusiastas de todo o mundo na análise de dados astronómicos reais, combinando o uso de inteligência artificial e ciência cidadã para explorar alguns dos maiores mistérios do cosmos: a matéria escura e a energia escura.

O telescópio espacial Euclid foi concebido para mapear a estrutura do Universo com uma precisão sem precedentes. Todos os dias, envia para a Terra cerca de 100 gigabytes de imagens de galáxias, criando um volume de dados impossível de serem analisados por meio de métodos tradicionais. Para lidar com o desafio, os cientistas decidiram recorrer a algoritmos de aprendizagem automática que fazem uma primeira seleção, a filtrar dezenas de milhões de galáxias, identificando aquelas que apresentam características mais promissoras.

Entre os fenómenos mais raros e valiosos que o Euclid procura estão as chamadas “lentes gravitacionais fortes”. Estas ocorrem quando uma galáxia ou um enxame muito massivo curva o espaço‑tempo, desviando a luz de objetos mais distantes. O resultado são imagens distorcidas, arcos luminosos ou até anéis completos — um efeito espetacular que confirma a teoria da relatividade geral e permite “pesar” galáxias invisíveis à observação direta. O estudo destas lentes é fundamental para compreender como a matéria escura se distribui no Universo e como a expansão cósmica tem evoluído ao longo do tempo.

É aqui que entra a ciência cidadã: como o dito “homem médio” pode ajudar? Basicamente, apreciando as imagens e respondendo à pergunta: “Olha para esta imagem de uma galáxia. Vês algo estranho? Um arco, um círculo, uma duplicação?”.  No Euclid Space Warps, disponível na plataforma Zooniverse, imagens previamente selecionadas por algoritmos são apresentadas a voluntários humanos, que as analisam visualmente e assinalam possíveis lentes gravitacionais. A perceção humana continua a ser extraordinariamente eficaz na identificação de padrões raros ou inesperados — muitas vezes escapando à deteção automática.

Este trabalho colaborativo já demonstrou resultados: em análises anteriores, que combinaram algoritmos e validação humana, foram identificadas centenas de novas lentes gravitacionais a partir de uma fração mínima dos dados disponíveis. Com o novo conjunto de dados do Euclid, os cientistas esperam descobrir mais de 10 mil lentes, um número que ultrapassa largamente tudo o que foi encontrado nas últimas décadas.

Mais do que um avanço na astronomia, o projeto Euclid Space Warps é um exemplo concreto de como a ciência aberta pode acelerar descobertas, aumentar a transparência e aproximar a investigação científica da sociedade. Ao convidar cidadãos a participar diretamente na produção de conhecimento, a missão Euclid mostra que compreender o Universo pode ser — literalmente — um esforço coletivo.

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Sobre o Autor ()

É membro da equipa do Gabinete de Gestão de Informação Científica, Repositórios e Ciência Aberta da Unidade de Serviços de Documentação e Bibliotecas da Universidade do Minho desde novembro de 2023. Aficionado por comunicação de ciência, ciências da informação e, obviamente, ciência aberta.

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