Ameaças à ciência aberta em 2026

. 11 de Dezembro de 2025

Durante o passado mês novembro, o “Leiden Madtrics”, blog do Centre for Science and Technology Studies (CWTS) da Leiden University chamou a atenção para aquela que é uma das principais ameaças para a ciência aberta em 2026.

A decisão dos Estados Unidos de abandonar a UNESCO, anunciada para 31 de dezembro do próximo ano, levanta preocupações sobre o futuro. Esta saída pode ter implicações significativas para a governança global da ciência, conforme é ressaltado na publicação.

A UNESCO é um dos principais “pivots” da promoção da ciência aberta, especialmente após a adoção da Recomendação sobre Ciência Aberta, em 2021, onde definiram-se princípios para acesso aberto, partilha de dados e colaboração internacional. A retirada dos EUA não é apenas simbólica; ela afeta diretamente a capacidade de harmonizar políticas globais.

O impacto vai além da perda da voz nos debates. Como um dos líderes mundiais na produção de ciência, os EUA desempenham um papel crucial na definição de padrões técnicos e éticos. Esta ausência abre espaço para outras potências assumirem a liderança em áreas estratégicas como a inteligência artificial ou a gestão de dados científicos. Diante dos novos equilíbrios alcançados, ainda que dentro da esfera da UNESCO, estes novos “pesos” e o efeito da nova “gravidade” do sistema destes novos líderes podem influenciar mudanças que divirjam do caminho até agora trilhado: “A ciência aberta depende da colaboração internacional; qualquer fragmentação ameaça os avanços conquistados”, sublinham os autores.

A decisão reflete as tensões políticas internas. O artigo observa que a retirada está alinhada com uma tendência mais ampla do desalinhamento dos EUA em organismos multilaterais, postura que contrasta com desafios globais que exigem cooperação, como mudanças climáticas e pandemias. Para os investigadores e as instituições, as consequências práticas podem passar por maior dificuldade em alinhar práticas de interoperabilidade de dados e acesso equitativo. Projetos financiados por agências norte-americanas podem enfrentar barreiras para integrar iniciativas coordenadas pela UNESCO. Além disso, a ausência dos EUA nos fóruns da UNESCO pode reduzir as oportunidades de networking e a influência em políticas internacionais.

A UNESCO, na figura do seu diretor-geral, Audrey Azoulay, já lamentou profundamente esta decisão  (https://www.unesco.org/en/articles/withdrawal-united-states-america-unesco-statement-audrey-azoulay-director-general), reafirmando o compromisso da organização com o seus programas globais, onde a ciência aberta também se encontra. No entanto, como concluem os autores, “a decisão dos EUA envia um sinal preocupante sobre a fragilidade do consenso internacional em torno da ciência aberta”.

O artigo pode ser consultado no blog https://www.leidenmadtrics.nl/articles/the-withdrawal-of-the-us-from-unesco-what-does-this-mean-for-open-science e também fez eco no portal “Research Professional News” (https://www.researchprofessionalnews.com/rr-news-europe-views-of-europe-2025-11-us-unesco-withdrawal-puts-open-science-at-risk/).

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Sobre o Autor ()

É membro da equipa do Gabinete de Gestão de Informação Científica, Repositórios e Ciência Aberta da Unidade de Serviços de Documentação e Bibliotecas da Universidade do Minho desde novembro de 2023. Aficionado por comunicação de ciência, ciências da informação e, obviamente, ciência aberta.

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